Boletim nº. 5

O jovem e o transplante
(12/04/2004)

Como qualquer especialista que se dedica à cirurgia do transplante do cabelo, é bastante freqüente receber perguntas ou consultas de homens jovens, que estão sentindo uma perda importante de cabelo. Antes de tudo, vamos qualificar: em relação à alopécia androgenética, considero o adulto jovem aquele que tem entre 20 e 35 anos. A história deste paciente normalmente revela um antecedente familiar para calvície (seja do lado paterno ou materno), e uma preocupação grande: será que vou ficar como meu pai? Ou como meu tio?

Esta é uma situação que poderá trazer grande angústia. As perguntas que este jovem se fará serão do tipo: O que posso fazer para evitar a queda de cabelo? Quando devo começar a pensar em tratamento, e qual o melhor tratamento? Será que vale a pena fazer agora um transplante, ou mais tarde?

Vários fatores são peculiares ao jovem que se vê como um futuro calvo, e todos deverão ser discutidos com o paciente, antes de haver qualquer compromisso de se realizar uma cirurgia.

Aspectos psicológicos: Na história da humanidade, uma cabeça cheia de cabelo sempre significou - no homem - virilidade, juventude, força. Já o seu oposto reflete a maturidade, mas também nos lembra que o processo de envelhecimento não tem retorno. Ainda hoje perduram estes conceitos, que poderemos chamar de "arquétipos", já que se expressam em todas as populações do mundo.

O paciente jovem tem uma expectativa muitas vezes maior do que os pacientes mais velhos. Há poucos anos ele tinha um volume grande de cabelo, e uma linha anterior bastante baixa; suas "entradas" não existiam. Sua demanda será, portanto, sempre maior. É importante explicar o que é a realidade em termos de planejamento da linha anterior e de quanto se pode transplantar de uma só vez.

Aspectos sociais: Nem todos os homens apresentam tendência à calvície, felizmente. É uma fonte de grande frustração para o jovem conviver com colegas, amigos, primos ou irmãos que continuam tendo tanto cabelo quanto sempre tiveram. Tampouco ele quer se ver parecido com seu pai...que provavelmente sofreu tanto quanto ele. Por outro lado, o namoro (ou o casamento) poderá sofrer um abalo quando a parceira sentir que a falta de cabelo lhe trás um aspecto mais envelhecido.

Um jovem com personalidade mais ativa, com mais ambição profissional, como um executivo, sempre desejará ter - e transmitir - uma atitude mais vigorosa, e isto inclui uma linha anterior com alta densidade.........Não se deve, naturalmente, generalizar já que muitos jovens convivem muito bem com sua calvície, preocupando-se com outras questões.

Aspectos técnicos: A cirurgia da restauração capilar (como hoje é chamada) não tem, por finalidade, reverter a tendência genética à calvície. Na verdade, o que nós cirurgiões fazemos é uma redistribuição de folículos, retirando-os de uma região e transplantando-os para outra. Portanto, no jovem, teremos que antever o grau final de calvície que lhe está destinado.

Um caso hipotético poderá ajudar no raciocínio: nosso paciente, Pedro, de 23 anos, tem uma tendência a sofrer uma calvície grau VI ou VII. Já que a área doadora do Pedro é rigorosamente a mesma em qualquer idade, uma cirurgia realizada, seja aos 25 ou aos 45, deverá ter o mesmo planejamento: uma linha anterior que mantenha as "entradas", sem avançar na testa, e um limite posterior até onde for possível transplantar.

Por outro lado, vamos lembrar que o cabelo transplantado crescerá ao longo da vida do Pedro, já que os folículos serão retirados da região dita "permanente". Por isso, a linha anterior - transplantada aos 25 ou 45 anos - deverá manter uma naturalidade ao longo de toda a sua vida.

Como mencionado acima, o jovem sempre terá uma demanda maior quanto ao resultado. Ele vai querer mais cabelo, numa linha anterior mais baixa, e estas questões técnicas devem ser devidamente esclarecidas. Finalmente, como o processo de calvície do paciente jovem continuará, deve-se alertar que serão necessárias pelo menos duas ou três sessões.

Como proceder Hoje o médico que trabalha com cabelo (cirurgião ou clínico) é visto quase como um especialista. O homem jovem deve procurar um bom profissional, que não aumente ainda mais suas ansiedades.

Devemos compreender as demandas de nossos pacientes jovens, que estão focalizando grandes energias na resolução de seu problema: a perda de cabelo. A cirurgia não deve ser sua primeira escolha. Um tratamento dermatológico, uma dieta balanceada ou mesmo a resolução de stress (estudos, trabalho, filhos) são etapas a serem resolvidas inicialmente. Quando uma cirurgia for planejada, não se deve desenhar uma linha anterior que tire "as entradas", e também não se deve proceder com uma sessão grande de enxertos, transplantando onde o paciente ainda apresenta uma densidade razoável de cabelo e "gastando" folículos à toa.

Estratégia Para o jovem candidato à um transplante, os pontos principais a serem ressaltados por um cirurgião experiente podem ser assim resumidos:

  • Encaminhar o paciente para uma primeira avaliação dermatológica;
    (Caso haja indicação de um comprometimento psicológico, solicitar uma avaliação específica)
  • Não realizar uma cirurgia enquanto o paciente não compreender perfeitamente todas as etapas do transplante;
  • Desenhar uma linha anterior sempre conservadora, nunca "tirando" as entradas;
  • Não implantar áreas que ainda possuem densidade razoável;
  • Explicar a necessidade de se fazer mais de duas ou três etapas;

Os jovens, apesar de mais impulsivos, compreenderão - na grande maioria dos casos - nossas recomendações e serão muito agradecidos quando nossa cirurgia, bem planejada e executada, lhes trouxer uma significativa melhora na sua autoestima.

Dr. Henrique N. Radwanski
Diretor Médico, Centro Pilos
Membro titular da S.B.C.P.
Membro da I.S.H.R.S.