Boletim nº. 1

Como escolher um profissional que vai fazer a sua cabeça?
(28/03/2003)

A cirurgia do transplante de cabelo (ou cirurgia da restauração do cabelo, como também é denominada) chegou ao seu ponto máximo de desenvolvimento, com a técnica conhecida como transplante folicular. Atualmente, o paciente que deseja submeter-se a uma cirurgia capilar pode ter certeza de um excelente grau de satisfação. A técnica produz um resultado natural e definitivo, sem causar qualquer restrição ou constrangimento. Em alguns países, notadamente na Europa, EE.UU. e Austrália, o transplante de cabelo é o procedimento estético mais realizado em homens, e a procura tende a aumentar à medida que os homens (e mulheres) compreenderem que é possível reaver uma cabeça cheia de cabelo.

Entretanto, é necessário que o paciente (e algumas vezes, a paciente, já que mulheres também são candidatas a esse procedimento) tenha informações honestas e esclarecedoras do possível resultado a ser obtido, considerando sua situação. Alguns cirurgiões, achando que este procedimento é de fácil realização ou desejando conquistar pacientes, anunciam novidades ou inovações, que não têm qualquer fundamento científico.

Não é demais repetir: cada caso é um caso, cada paciente é diferente do outro. A seguir, abordaremos os aspectos que achamos mais importantes para que o paciente escolha corretamente seu profissional.

1. Qual a experiência do médico?

A formação do profissional que se dedica ao transplante de cabelo pode tanto ser em cirurgia plástica como em dermatologia. Neste último caso, é necessária uma residência médica em cirurgia dermatológica. Pertencer a uma das sociedades (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica [S.B.C.P.] ou Sociedade Brasileira de Dermatologia [S.B.D.]) significa que o médico participa ativamente de encontros científicos e está constantemente atualizando-se.

O tempo de experiência do profissional na área da cirurgia de cabelo também deve ser pesquisado. Estima-se que leve, pelo menos, três anos até que o profissional tenha o conhecimento e a habilidade para garantir um resultado satisfatório. Isto porque não é possível avaliar um bom resultado com menos de um ano. No início de sua formação, o médico terá poucos pacientes. Idealmente, ele ou ela também deve investir seu tempo visitando outros profissionais, participar de congressos específicos, e pertencer a instituições de ensino.

Portanto, pergunte ao seu cirurgião (ã) há quanto tempo ele (a) se dedica à cirurgia do transplante de cabelo. Peça também para ver seus resultados (estes devem ser mostrados, mas preservando sempre a identificação do paciente). As fotografias de antes e depois devem mostrar bem de perto detalhes da linha anterior (para se certificar de que não são usados tufos, que podem deixar um aspecto "cabelo de boneca"). Por fim, pergunte se as fotos são do próprio profissional, ou se pertencem a um grupo ou sistema ao qual o médico se associou.

2. Qual a técnica a ser utilizada?

Atualmente, podemos resumir a cirurgia da restauração capilar conceitualmente em duas técnicas principais: o transplante de cabelo, e a redução de área calva (conhecida pelo nome em inglês "scalp reduction technique"). Quase não se realiza mais a expansão do couro cabeludo, nem o uso de retalhos.

O procedimento de reduzir a área calva tem, por objetivo, melhorar a relação área doadora/área receptora. Assim, diminuindo a área a ser implantada, aumentamos proporcionalmente a quantidade de folículos que poderão ser transplantados. Entretanto, esta técnica vem caindo em desuso, já que obrigatoriamente deixa uma cicatriz visível na área calva.

Na especialidade da cirurgia do cabelo, o estado da arte chama-se "transplante folicular". Com uma equipe bem treinada de técnicas-auxiliares, fazendo uso de lentes de aumento ou microscópios, é possível hoje otimizar um transplante, aproveitando ao máximo o preparo dos chamados enxertos foliculares. É obrigatório o uso de magnificação, pois só assim é possível identificar as unidades foliculares, realizando o transplante apenas do material que dará crescimento ao cabelo: os folículos pilosos.

O processo de retirada do fuso, o preparo dos enxertos pela equipe de técnicas, e o ato de implantar as unidades foliculares são as etapas que compõem o procedimento. Em todos estes momentos, é fundamental respeitar e preservar a estrutura do folículo, que é extremamente delicado. Caso a unidade folicular seja traumatizada (por esmagamento, ressecamento, má manipulação) o fio de cabelo simplesmente não crescerá. Este é um processo tedioso, que exige um trabalho de equipe bem articulada, levando em média quatro a cinco horas para completar uma sessão de aproximadamente 1,500 enxertos (como cada enxerto contem, em média, três folículos, isso equivale ao transplante de 4,500 fios de cabelo).

Alguns profissionais, sem adequada formação, tentam acelerar este procedimento usando um aparelho mecânico chamado de "hand-engine". Dizem eles que trata-se de uma grande novidade que só eles possuem, e que a cirurgia terá uma duração muito menor, de apenas uma a duas horas. Damos um alerta aos leitores: este aparelho vem sendo utilizado, e condenado pelas sociedades médicas, desde os anos 60. O tempo que se ganha utilizando-o é uma vantagem apenas para o cirurgião; com sua alta rotação, o "hand engine" danifica permanentemente o folículo. O cabelo não crescerá, ou crescerá de maneira grosseira, já que o aparelho retira verdadeiros tufos da região doadora, deixando ali centenas de pequenas cicatrizes. Portanto, pergunte ao seu médico se ele conhece, e utiliza, a chamada técnica de transplante folicular. Não se deixe enganar pelo marketing do aparelho "hand engine"! Os folículos pilosos são matéria prima natural não-renovável! Qualquer dano resultará no não-crescimento do folículo transplantado, e um esgotamento da sua área doadora.

A cirurgia de cabelo deve ser entendida exatamente como tal: um procedimento cirúrgico. Portanto, além do bom profissional e da boa técnica, é necessário saber se a sua cirurgia será realizada com segurança. Ela pode ser feita em hospital ou clínica especializada, mas sempre dentro de um centro cirúrgico com todas as condições de conforto e segurança. Não somos partidários de se tentar atrair o paciente dizendo que sua cirurgia é tão simples que pode ser realizada em consultório.

Dentro do tema segurança, uma questão muito importante, à nosso ver, é uma correta sedação do paciente. O que é isso? Como em qualquer ato cirúrgico, utilizamos drogas para anestesiar o paciente (anestesia local significa aplicar uma mistura de anestésico com uma quantidade mínima de adrenalina, substância que reduz muito o sangramento) que podem, muito raramente, causar alguma reação adversa. Por outro lado, em se tratando de um procedimento de longa duração, o cirurgião deve ter um paciente tranqüilo, que se sinta confortável...em poucas palavras, o ideal é um paciente dormindo.

Assim, os bons profissionais adotam a sedação do paciente como a melhor maneira de realizar seu trabalho. O especialista nessa área é o médico anestesista; ele (a), conhece profundamente todas as drogas necessárias para garantir uma sedação (ie. um estado de sono através de medicamentos) ao mesmo tempo leve e segura. Durante toda a cirurgia o anestesista fica observando cuidadosamente o estado geral do paciente, através de equipamentos (a isso chamamos de monitorização). Enquanto o paciente dorme, nós cirurgiões podemos trabalhar sabendo que o paciente está confortável e relaxado, sem sentir dor. Ao final do procedimento, os efeitos da sedação já estão praticamente extintos e o paciente, já acordado, pode voltar andando para o quarto de repouso. Após um breve repouso, o paciente retorna à sua casa (definindo assim um procedimento ambulatorial ou sistema "day clinic").

É bom lembrar que a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (S.B.A.) recomenda a presença de um anestesista sempre que se realiza uma cirurgia de longa duração, mesmo que sob anestesia local.

Recentemente um paciente que tinha investigado outras clínicas, me perguntou: "Dr. Henrique, porque não posso ficar acordado durante a cirurgia?"

Respondi: "Mas você quer ficar acordado porque? Você quer assistir televisão, conversar com um amigo, ou ler um livro durante sua cirurgia? Você acha que vai agüentar ficar deitado tranqüilamente durante quatro a cinco horas sem se mexer? Acho que você deve dedicar este dia para investir no seu futuro, dormindo enquanto eu realizo o trabalho."

Pergunte ao seu médico se ele(a) realiza esta cirurgia com o paciente acordado ou dormindo.

Existe uma razão muito forte para não se adotar a sedação: economiza-se os honorários do médico anestesista. Por outro lado, o barato pode sair caro: nada substitui o conforto, o bem-estar e a segurança do paciente!

Em resumo: anestesia local com sedação e a presença de médico anestesista representa tranqüilidade, segurança e um bom resultado.

Por fim, recomendo a todos os pacientes que desejam submeter-se a uma cirurgia de transplante de cabelo que procurem se informar sobre o profissional escolhido, a técnica que ele usa, e qual o tipo de procedimento ele (a) realiza. Não é demais enfatizar: um bom resultado é permanente e dará muita satisfação, porém um mal resultado será aparente pelo resto da vida do paciente!

Dr. Henrique N. Radwanski
Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Consultor da Clínica Ivo Pitanguy
Médico Diretor do Centro PILOS - Rio de Janeiro

Nota: Este artigo reflete apenas uma opinião pessoal do Dr. Henrique, não sendo necessariamente uma posição oficial de qualquer uma das entidades médicas citadas (S.B.C.P., S.B.D., S.B.A.)